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Boletim IG-USP

Print version ISSN 0100-3879

Bol. IG vol.11  São Paulo Dec. 1980

 

Revisão fitoestratigrãfica do Grupo Itararé no Rio Grande do Sul. III - área de faxinal, Município de Guaíba, Rio Grande do Sul

 

 

Margot Guerra-Sommer; Miriam Cazzulo-Klepzig; Marleni Marques-Toigo

Curso de Pós-graduação em Geociências, UFRGS

 

 


RESUMO

A seqüência estudada corresponde a fácies areno-pelíticas do topo do Grupo Itararé na localidade de Faxinal, Folha Barão do Triunfo, RS e indica ambiente lacustre com periódicas expansões e recuos das bordas do lago.
A tafoflórula é representada pelos gêneros Rubidgea, Paracalamites, Cordaites, Buriadia, Glossopteris, Gangamopteris, Cordaicarpus e Samaropsis. A associação palinológica é constituída principalmente por Puntatisporites, Granulatisporites, Calamospora, Leiotriletes, Cristatisporites (Pteridophyta), Potoniespohtes e Plicatipollenites (Gymnospermae), estando as Glossopteridophyta escassamente representadas.
Sâo estabelecidas, neste trabalho, as vinculações entre a micro e macroflórula, indicando para as associações idade correspondente ao Sakmariano.


ABSTRACT

The studied sequence outcrops at Faxinal locality, Barão do Triunfo sheet, and belongs to the silty-sand facies of the Itararé Group.
The facies represents a lacustrine environment with periodical fluctuations of the borders.
The taphoflorula consists of the genera Rubidgea, Paracalamites, Cordaites, Buriadia, Glossopteris, Cordaicarpus and Samaropsis.
The palynological assemblage is composed of Punctatisporites, Granulatisporites, Calamospora, Leiotriletes, Cristatisporites (Pteridophyta), Potoniesporites and Pilacopollenites (Gymnospermae), the Glossopteridophyta scarcely being represented.
Micro and macroflórula relationships are recognized, allowing the definitian of a Sakmarian age for the associations.


 

 

INTRODUÇÃO

Andreis et alii (1979) ampliam os estudos já realizados, por Morgenthal et alii (1970) e Corrêa da Silva (1970 e 1978) na área de Faxinal que se localiza no ângulo NE da Folha Barão do Triunfo, próximo à confluência dos Arroios Grande e Faxinal, aproximadamente 10km a WNW de Mariana Pimentel (fig. 3).

As seqüências, constituídas por arenitos e pelitos em proporções variáveis, correspondem à parte superior do Grupo Itararé no Rio Grande do Sul e representam os afloramentos mais ocidentais de um paleovale que se estende desde Potreiro Grande (4km a Leste de Mariana Pimentel) até além do Faxinal.

Foram reconhecidas Informalmente por Andreis et alii (op. cit.) duas facies: branca e castanha (fig, 3), com base nas cores contrastantes mais do que por suas características litológicas. Enquanto que na facies branca ocorrem impressões, na facies castanha predominam as carbonificações. Os macrofósseis são mais abundantes na facies branca, não havendo, porém, diferenciação qualitativa na composição das tafoflórulas em ambas as facies. (perfis da fig. 1, fig. 2). Microfósseis foram registrados apenas na facies castanha.

Tanto a facies branca como a castanha representam a etapa final de preenchimento dos extensos lagos com os quais termina o ciclo sedimentar do Grupo Itararé (Corrêa da Silva, op. cit.. Bossi e Piccoli, 1979).

Aplicando o critério exposto por Bond (1974), a alta incidência dos processos de carbonificação dos vegetais na facies castanha pode ser interpretada como relacionadas a bacias mais restritas do que aquelas referentes a deposição dos sedimentos da facies branca. Entretanto estas restrições devem ter sido menores e provavelmente periódicas no topo das seqüências castanhas, se for levado em consideração que os tons vermelho pálidos são comuns nos sedimentos quando secos.

 

ANÁLISE PALINOLÓGICA

O estudo palinológico das amostras coletadas dos níveis com fósseis vegetais na facies castanha da área de Faxinal (perfil- da fig. 3), revelou uma associação esporopolínica constituída principalmente de esporos triletes lisos, apiculados e zonados, formas monossacadas, raros bissacados e raríssimos grãos estriados.

As amostras foram processadas pelos métodos usuais de eliminação dos carbonatos e silicatos com HCL e HF.

As fotografias apresentadas na Estampa 2. sofreram um aumento de 380X; as lâminas palinológicas estão depositadas na palinoteca do Departamento de Paleontologia e Estratigrafia do Instituto de Geociências da UFRGS.

Do material determinado, as espécies de maior representação na associação são:

Calamospora sp (Est. 2, fig. 1).

Punctatisporites gretensis forma minor Hart ( Est. 2. fig. 2).

Granulatisporites cf. G. micronodosos Balme e Hennelly (Est. 2, fig. 3)

Cyclogranisporites sp. ( Est. 2, fig. 4).

Horriditrileres sp. ( Est. 2, fig. 5).

Apiculatisporis sp. ( Est. 2, fig. 6).

Vallatisporites areuatus (Marques-Toigo) Archangelsky e Gamerro (Est. 2, fig. 7).

Vallatisporites sp. (Est. 2, fig. 8).

Lundbladispora brasiliensis (Pant e Srivastava) arques-Toigo e Pons (Est. 2, fig. 9).

Cristatisporites sp. (Est. 2, fig. 10).

Potonieisporites cf. P. brasiliensis (Nahuys, Alpern e Ybert) Archangelsky e Gameno (Est. 2, fig. 11 e 12).

Potonieisporites sp. (Est. 2, fig. 13).

Cannaropollis cf. C densus (Lele) Bose e Maheshwari 1968 (Est. 2, figs. 16, 19 e 22).

Plicatipollenites cf. P. rnalabarensis (Potonié e Sah) Fostei 1975 (Est. 2, figs, 14, 15 e 18).

Plicatipollenites sp. (Est. 2, fig. 17).

Striatiti (Est. 2, fig. 21).

Cycadopites sp. (Est. 2, fig. 20).

Nos três níveis fossilíferos estudados na área de Faxinal (Fig. 3), Itararé do Rio Grande do Sul, a associação palinolôgica se apresentou uniforme.

De acordo com a freqüência dos esporos triletes (75%), grãos monossacados (15%) e praticamente ausência de grãos bissacados (0,5%) e estriados (0,5%), esta associação corresponde ao intervalo bioestratigráfico H1/H2 da Bacia do Paraná (Daemon e Quadros, 1970) e correlacionar-se-ia à parte superior da zona Potonieis porites-Lundbladispora da Bacia Chaco-Paranaense da Argentina (Archangelsky e Marques-Toigo, 1978), de antigüidade equivalente ao limite Stefaniano C/Sakmariano, ou segundo Faddeieva (1976) à base do Assiliano na Rússia.

 

ANÁLISE PALEOBOTÂNICA

A assembléia paleoflorística registrada nos afloramentos citados está representada por Sphenophyta, Glossopteridophyta, Cordaitophyta, Coniferophyta, sementes platispérmicas e diversas folhas classificadas por Plumstead (1973) como "incertae sedís". O material integra a coleção Paleobotânica do Departamento de Paleontologia e Estratigrafia do Instituto de Geociências, UFRGS.

Apesar do pequeno numero de espécies com características bem evidentes, pode se concluir por uma predominância, nos restos vegetais de formas relacionáveis à Gymnospermae.

A listagem tafoflorística abaixo representada é baseada numa identificação preliminar, dado o estado fragmentário do material:

Paracalamites cf. australis Rigby - Est. I fig. 1 (x 4,5).

Glossopteris sp. - Est. I, fig. 9 (x 1,5).

Cordaites sp. - Est. I figs. 2 (x 1,5), 3 (1,5).

Buriadia sp. - Est. I fig. 4 (x 3).

Rubidgea sp. - Est. I figs. 10 (x 1,5), 8 (x 3).

Cordaicarpus - Est. I fig. 7 (x 9).

Samaropsis sp. - Est. I fig. 3 (x 3).

Gangamopteris sp. - Est. I fig. 5 (x 3).

Dentro dessa associação evidencia-se um predomínio de folhas isoladas do tipo Rubidgea e de sementes plastipérmicas de pequeno porte. Com menor freqüência, ocorrem representantes de Cordaites, Glossopteris, Gangamopteris, caules articulados e raras Coníferas.

O gênero Rubidgea enquadrado por Plumstead (1973) como "incertae sedis" no grupo das Glossopteridophyta ocupa (Bernardes de Oliveira, 1978) uma posição ancestral em relação a Gangamopteris e Glossopteris. Sua maior ou menor freqüência em determinada associação constitui-se em fator importante, portanto, na determinação do intervalo em que a paleoflora se depositou.

Considerando que na presente associação ocorre, embora escassamente, o gênero Glossopteris associado a proporções maiores de Gangamopteris e maior abundância de Rubidgea, a assembléia considerada sugere uma idade correspondente ao Sakmariano.

Deve ser salientado que a presença de Rubidgea tem sido assinalada também na Tafoflora de Cerquilho, São Paulo (Tafoflora Transicional, inf. verbal de Millan, J.H.) Bajo de Veliz, Argentina (inf. verbal de Archangelsky, S,), Acampamento Velho, Morro Papaléo, Rio Grande do Sul (Klepzig et alii, inédito) e Fazenda Goulart, Rio Grande do Sul (Andreis et alii, inédito).

Comparando a associação analisada com as sucessões tafoflorísticas estabelecidas por Rösler (1978) para o Gondwana brasileiro, evidencia-se uma certa similaridade com a Tafoflora Transicional (Sakmariano).

Em relação às Idade-floras estabelecidas por Archangelsky (1971) para o Sistema Paganzo da Argentina, nota-se a presença de elementos comuns com os da flora descrita para Bajo de Veliz por Archangelsky et allii (1978).

 

CONCLUSÕES

A análise dos dados paleobotânicos evidencia uma assembléia de Flora Glossopteris. onde predominam as Protoglossopterideas (Rubidgea), já ocorrendo, porém, uma representatividade razoável de Glossopterideas, estando Gangamopteris em nítido predomínio em relação a Glossopteris, Ocorrem também Cordaites e coníferas em representatividade inferior às Protoglossopterideas.

Os esporomorfos representados podem ser vinculados aos grupos das Pteridophyta e Gymnospermae, em proporção concordante com a macroflora; este resultado se traduz pela pobreza de pólens estriados, os quais aparecem em maior quantidade na zona palinológica subseqüente (intervalo H3 do Brasil e a Zona Cristatisporites da Argentina).

Comparando a microflórula e macrofórula com as descritas para Bajo de Veliz e a macroflora referida para Cerquilho, pode-se concluir que a antigüidade da associação aqui estudada corresponderia à base do Sakmariano.

 

BIBLIOGRAFIA

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